CEOs unpluggeds: líderes no comando, não nas redes
Há algumas semanas, publicamos um artigo sobre a nova tendência dos CEOs influenciadores, que estão assumindo um papel de destaque nas redes sociais e cujas vozes, muitas vezes, têm tanto ou maior alcance quanto as marcas que representam.
Mas será que o “líder à moda antiga”, que não está sob os holofotes do algorítimo, está fora do jogo? Claro que não. A verdade é que nem todo líder é um showman. Há aqueles que preferem liderar de forma discreta, priorizando a substância ao invés do espetáculo e a profundidade no lugar da viralização.
Seria um erro, no entanto, interpretar essa decisão como resistência à comunicação. Pelo contrário: esse tipo de liderança demonstra que comunicação estratégica vai muito além das redes sociais. Para muitos CEOs, especialmente os mais técnicos ou reservados, encontrar formas alternativas de compartilhar suas ideias e valores pode ser a chave para construir uma conexão genuína, tanto interna quanto externamente.
Autenticidade: O Pilar da Comunicação Estratégica
A boa comunicação não depende de onde se está comunicando, mas sim de como se faz isso. O CEO que opta por métodos mais discretos de interação muitas vezes encontra formas profundamente eficazes de construir autoridade e confiança. Entre as várias maneiras de alcançar isso estão:
- Artigos e publicações técnicas: Uma análise detalhada sobre tendências do setor compartilhada em revistas especializadas pode, para um público-chave, carregar muito mais peso que um post popular nas redes sociais.
- Eventos corporativos e palestras: Um CEO que participa de painéis ou assume o palco em conferências do setor reforça sua expertise e a da organização de maneira impactante diante dos stakeholders mais estratégicos.
- Comunicação interna próxima e frequente: Falar diretamente com os colaboradores por meio de reuniões, e-mails personalizados ou até uma newsletter interna pode ser tão poderoso – ou mais – quanto se projetar externamente. Funcionários bem informados e alinhados com a liderança tendem a se tornar os melhores defensores da marca.
Esses ambientes oferecem um espaço onde líderes podem expressar conhecimento de forma autenticamente alinhada às suas fortalezas, sem a pressão de disputar cliques e curtidas.
Comunicação Além do Espetáculo
Ao forçar líderes mais reservados a adotar comportamentos que não condizem com sua personalidade – como criar vídeos para o TikTok ou manter uma postagem semanal de frases motivacionais – há o risco de comprometer a essência da comunicação. Afinal, o público percebe quando o “tom” não soa natural. Pior ainda, essa falta de autenticidade pode transformar um exercício estratégico de comunicação em um tiro no pé.
Por outro lado, investir em formas complementares de comunicação, menos performáticas e mais adequadas ao perfil do líder, pode abrir portas para abordagens diferentes, mas igualmente eficazes. Tomemos como exemplo o impacto das criações de conteúdo mais reflexivo: artigos de opinião, white papers ou relatórios técnicos. Essas ferramentas carregam um peso particularmente valioso em setores que exigem raciocínio analítico, como tecnologia, engenharia ou saúde. Aqui, o CEO não só transmite informações, mas também molda o pensamento do setor. Ele se torna uma referência sem precisar de um único passo de dança.
Além disso, a comunicação cara a cara ainda carrega um imenso peso – tanto no ambiente externo quanto interno. Às vezes, a conversa em uma mesa redonda com investidores ou um encontro casual com funcionários fala mais alto do que qualquer estratégia digital. Essas interações são oportunidades onde o líder pode engajar sem filtros, inspirando não através do espetáculo, mas sim do diálogo.
Quando a Comunicação Interna Vira o Diferencial
Se a comunicação externa reforça a influência de um CEO perante o mercado, a comunicação interna pode ser o palco onde ele fortalece verdadeiramente sua liderança. Uma organização bem estruturada depende de um líder que é capaz de inspirar seus talentos diariamente – não com frases motivacionais genéricas, mas com um modelo de engajamento que prioriza a clareza, a transparência e, principalmente, a conexão genuína.
Um CEO que escolhe focar em sua equipe costuma priorizar formatos que reforcem esses princípios. Isso pode incluir reuniões de alinhamento, mensagens de vídeo para atualizar o progresso da empresa, interações abertas com espaço para perguntas e respostas diretas ou até mesmo momentos de informalidade que demonstrem vulnerabilidade e humanidade, nos bastidores. Ao fazer isso, ele não apenas fortalece as bases culturais da organização, mas também gera engajamento interno muito maior do que poderia alcançar por meio de followers ou likes nas redes sociais.
Mais importante, essas ações são essenciais porque transformam os próprios funcionários em agentes de reputação. Colaboradores bem informados e alinhados com os valores e propósitos da empresa tornam-se embaixadores naturais da marca, multiplicando sua influência além das redes sociais.
Diversidade na Liderança: Um Novo Paradigma
A pluralidade de estilos de liderança é, na verdade, um dos maiores ativos que as organizações podem cultivar hoje. O líder performático e o líder reservado não precisam competir para provar qual é mais eficaz; pelo contrário, suas diferenças podem e devem coexistir em um ecossistema de comunicação estratégica que valorize a autenticidade acima de tudo.
Assim, surge uma nova perspectiva: não precisamos mudar a essência dos CEOs introvertidos ou técnicos para que eles se tornem “adequados”. Precisamos, sim, valorizar o que eles têm de único e adaptar suas formas de comunicação àquilo que os torna genuinamente fortes e confiáveis.
A liderança corporativa não é um espetáculo. São valores que se traduzem em ações transformadoras, seja no palco, seja nos bastidores. Seja em rede ou em mesa de reunião. Seja na fala ou no silêncio. Afinal, o mundo corporativo continua a nos provar que o impacto mais duradouro muitas vezes vem de mensagens que não precisam ser gritadas para serem ouvidas.